Por Bárbara Beraquet
Padre Haroldo Rahm, sj, é uma referência quando se fala em prevenção à dependência química. Aos 92 anos, o jesuíta de sorriso afetuoso pratica e ensina Yoga Cristã. Os mais jovens e em melhor forma reagem boquiabertos quando esse senhor, de rosto coberto pelas marcas do tempo, coloca-se de ponta cabeça. Por muitas vezes, também o mundo em que vivemos parece estar de “cabeça para baixo”.
Essa sensação, que não é incomum, certamente já visitou seus pensamentos e já cruzou a história de tantas famílias que procuram a Instituição Padre Haroldo, também conhecida como APOT (Associação Promocional Oração e Trabalho), para que seus filhos, irmãos ou esposos tenham garantida uma tão apregoada “segunda chance”. Essa expressão, contudo, não descreve com a menor fidelidade os desafios de quem busca a sobriedade. Entre eles, estão transformações que vão além da libertação física das drogas – poderosas transformações internas.
Parado em frente a sua sala, Padre Haroldo recebe um pedido dos que chegam: “posso dar um abraço no senhor?”. Essa cena se repete com frequência. São braços de mães, de filhos, de moços e moças que enlaçam e são enlaçados pelo jesuíta, em agradecimento ao que o padre construiu e ensina a construir.
Nascido nos Estados Unidos, Padre Haroldo adotou o Brasil como sua terra, naturalizando-se em 1986, mas nunca perdeu o sotaque texano que o acompanha no carinho com que fala aos outros.
“Eu já estou na Terra há mais tempo do que você é nascida, mas se houve algo que não consegui, foi aprender a falar o português direito”, ele diz à jornalista que o está entrevistando. Mas não é verdade – é fácil compreender o que o jesuíta diz.
“Alívio imediato”
Na farmacinha caseira, é comum encontrarmos medicamentos para sanar a dor. Se é dor de cabeça, sabemos exatamente qual daqueles comprimidos tomar. Se é dor de barriga, bolhas efusivas no copo com água podem nos acalmar o mal-estar. Nossa sociedade aceita e incentiva o uso dessas drogas lícitas para obter alívio imediato. Com drogas como álcool, maconha, cocaína e crack, entre tantas outras, a relação não é diferente. “As drogas, temporariamente, aliviam a ‘dor’. Mas logo a tolerância a elas é aumentada”, explica padre Haroldo.
Segundo o padre, como regra geral, os dependentes químicos começam usando maconha ou cerveja, depois passam a usar cocaína até chegar ao crack, droga derivada da cocaína que destrói o funcionamento do cérebro rapidamente. Dados referentes a 2009, da Junta Internacional de Fiscalização a Entorpecentes (Jife) — órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), apontaram o Brasil em terceiro lugar no ranking de maior consumidor mundial de crack. No País, observou-se ainda a principal rota de tráfico internacional de cocaína no Cone Sul.
Embora faltem estatísticas, Padre Haroldo enfatiza que um em cada 10 jovens abusam seriamente de álcool e outras drogas, e um a cada 25 jovens abusam de drogas. Como aponta o jesuíta, as drogas são uma “praga nova”, que tem se revelado em especial nos últimos 25 a 30 anos.
O consumo de álcool, embora tenha efeito destruidor, é aceito e banalizado pela sociedade. Essa tolerância é prejudicial principalmente para os jovens. “Se o problema não é na minha casa, ele não me preocupa” é a linha de pensamento que se segue, como explica padre Haroldo. Todos os anos, cerca de 2,5 milhões de pessoas morrem por causas relacionadas ao álcool, de acordo com OMS (Organização Mundial da Saúde) em seu “Relatório Global da Situação sobre Álcool e Saúde”. O álcool causa quase 4% das mortes no mundo todo. Mata mais do que a Aids, a tuberculose e a violência.
Empobrecimento das famílias
“Drogas são caras, álcool é caro. Muito dinheiro é gasto nisso”, lembra o padre. A conta é simples: se o dinheiro que deveria alimentar e vestir as crianças da família está sendo investido no consumo de drogas, a família passará por privações.
O empobrecimento é notável principalmente entre a Classe C, no operariado, em que o dinheiro do salário escoa pela dependência química. “O desejo pelas drogas e álcool fica tão forte que os adultos nem pensam que estão destinando todo seu dinheiro a isso. A família não tem comida, casa, não cuida de suas crianças”, comenta.
Muitos jovens adultos que chegam até a Instituição Padre Haroldo não pagam pelo seu tratamento, por que não tem como fazê-lo. Muitos roubaram suas famílias para usar drogas e ficaram sem um centavo sequer.
A entidade, fundada em 1978, tem atualmente 150 homens e mulheres em tratamento. A maior parte dele, custeada por empresas parceiras, que acreditam e valorizam o trabalho de resgate à vida realizado na APOT.
Narcotráfico
Mas se tantos estão perdendo com as drogas – suas vidas, famílias e saúde, quem ganha? “Traficantes ganham mais dinheiro do que qualquer outra coisa no mundo, com exceção de armas. Drogas estão em todo lugar, facilmente podem ser compradas e qualquer jovem sabe onde pode comprar”, comenta padre Haroldo.
Alerta
Os jovens são movidos a experimentar drogas pela curiosidade. A falta de espiritualidade e religião dos pais também é um fator, de acordo com padre Haroldo – “falta praticarem e ensinarem ética e moralidade, e a presença da divina majestade, Deus, aos jovens”, diz. Em casa, divórcio, separação e brigas são alguns dos problemas recorrentes entre os dependentes químicos. “Na escola, os professores sabem muito pouco sobre as drogas e seu mundo”, lembra.
As crianças, por volta dos 13 anos, descobrem as drogas pelos mesmos motivos. Muitas têm o mau-exemplo dos pais e em casa, conforme explica o jesuíta, que está no Brasil desde 1965. As crianças, ainda, imitam jovens mais velhos, um fator que contribui para o uso, e, apesar de existir uma legislação contrária, também elas podem comprar drogas, incluindo a cerveja.
Para encontrar a sobriedade
“É preciso ter um certo tipo de espiritualidade, não importa qual denominação religiosa, até mesmo os 12 passos do AA (Alcóolicos Anônimos)… Por que se a pessoa vive só humanamente, é raro que fique sóbria. É necessário um despertar espiritual, e isso é muito menos do que uma conversão”, reflete padre Haroldo.
Ele lembra que, de cada 10 dependentes químicos que buscam o tratamento, seis retornam ao uso de drogas. Os quatro que encontram a sobriedade iluminam o semblante do jesuíta. “Essas pessoas são maravilhosas! São dedicadas, procuram servir e ajudar aos outros. São eles que ajudam os outros a ficar sóbrios!”, exalta. Isso por que conhecem, na própria pele, o que significa o abuso de drogas.
E, mesmo para quem acredita que não tem mais nada a perder, existe muita vida a ser vivida. A mensagem final de padre Haroldo é positiva e animadora. “O fato de alguém ser alcoólatra ou toxicômano não é o fim do mundo! No segundo em que ele desejar parar, ele pára. Mas isso requer coragem e a graça de Deus. Deus sempre dá essa graça. Só é preciso aceitá-la”, encerra.
SAIBA MAIS
No ano passado, Padre Haroldo, em parceria com a Prefeitura Municipal de Campinas, fundou o Programa Guadalupana para enfrentamento à situação de rua com serviços de abordagem de rua e serviços de acolhimento de meninos e meninas que estão vivendo nas ruas da cidade.
A APOT foi reconhecida em Nova York na 23ª Conferência da WFTC (World Federation of Therapeutic Communities) como uma das três melhores Comunidades Terapêuticas do Mundo, recebendo o Prêmio Harry Scholl Award. A instituição fica à R. Dr João Quirino do Nascimento, 1601, no Jd. Boa Esperança, em Campinas.
Visite: www.padreharoldo.org.br
Visite também o web site da Pastoral da Sobriedade – uma ação concreta da Igreja Católica que evangeliza pela busca da Sobriedade como um modo de vida www.sobriedade.org.br
Testemunhos
“O uso de drogas roubou a minha liberdade e alegria”
M.E.A., hoje com 30 anos de idade, teve seu primeiro contato com o álcool aos 13.
“Na minha família, passávamos por diversas situações difíceis com meu pai que bebia em excesso e um dia eu tive a ‘brilhante’ idéia de beber com ele para que ele bebesse menos. O pior foi que tanto meu pai como minha mãe permitiram que eu bebesse. Quando senti o relaxamento a descontração causada pelo álcool, adorei”, conta a jovem, ex-residente da Comunidade Terapêutica Feminina da Instituição Padre Haroldo.
Com a autoestima e a autoconfiança muito baixas, M.E.A. descobriu, no álcool, uma maneira de se “soltar” nas “baladinhas”, bem como em outras situações sociais, e passou a beber ocasionalmente.
“Aos 16 anos, na adolescência eu me sentia muito sozinha, angustiada, mal compreendida pelos meus pais; havia muitos conflitos em minha casa. Meu pai continuava bebendo”, conta M.E.A., que então passou à maconha. “Também gostei. Mais adiante foi a cocaína e já na fase de dependência, depois de muitas internações, experimentei o crack com 25 anos. Com a cocaína, nos primeiros efeitos eu me sentia autoconfiante, importante, forte, enérgica. Com o tempo, sentia paranóia, angústia, mais solidão e, mesmo assim, continuava usando, buscando a sensação dos primeiros usos”, completa.
Durante os anos de dependência química, a moça pediu dinheiro em semáforos, prostituiu-se – tudo com a finalidade de usar drogas. Ficava por vários dias fora de casa, em barracos na favela, “sendo que tinha uma cama quentinha em casa”. Usou drogas com carroceiros, em lugares sujos, no meio do mato. Ficava sem comer, sem dormir, suja e chegava a vomitar de tanto usar. Vivia em situações de risco: “colocaram uma arma na minha cabeça, tentaram me estuprar, corri da polícia, quase morri de overdose”.
“Tudo isso me gerava medo, vergonha, uma angústia infinita, falta de amor próprio e isolamento. Ao mesmo tempo, eu ‘deletava’ tudo isso e ia de novo, então afundava mais ainda…. O uso de drogas, dentre todas essas coisas, roubou a minha liberdade e alegria. Sou uma pessoa muito alegre e afetiva, usando drogas eu me tornei triste, sem vontade de ficar perto das pessoas, sem conseguir me olhar no espelho. Fora o sofrimento que infringi a minha família”, relata M..
“Na instituição me senti acolhida e recebi a atenção, o carinho, o cuidado e o respeito que eu não tinha por mim mesma. Cheguei derrotada e, aos poucos, com a rotina, as atividades como: trabalho, espiritualidade, terapia individual, terapia familiar, atividades de conscientização sobre o uso, atividades de prevenção à recaída, o contato com outras pessoas que passaram pela mesma situação que eu… fui olhando para mim, entrando em contato com a dor do arrependimento, com a culpa, o perdão e com as coisas positivas que eu tinha e ainda poderia ser… dessa forma, fui recuperando minha autoestima, a esperança e a vontade de viver. Hoje estou há um ano e quatro meses sem fazer uso de drogas. Aprendi que preciso ter uma rede de proteção: amigos, grupo de NA (Narcóticos Anônimos), família, médico, psicólogo”, explica.
“Não usei drogas minha vida inteira da forma que usei nos últimos anos, durante o tempo que não usei tinha uma perspectiva positiva de futuro; desejava trabalhar, contribuir com a sociedade, conquistar minha independência, casar, ter filhos. Usando drogas, eu só queria usar drogas, e tinha uma perspectiva muito negativa de fracasso, tristeza, solidão e que poderia morrer ou me prejudicar gravemente a qualquer momento. Acho que o que mudou não foi minha visão de mundo e sim o meu desejo. Um é o desejo pela vida, por ser feliz. Outro era o desejo pela morte, pela droga. Hoje estou optando por enfrentar as dificuldades da vida, sem fugir usando drogas e crescer, construir, ser feliz”.
“Descobri que o olhar com amor transforma e viver em sobriedade é essa transformação diária”
J.P.P. teve seu primeiro contato com o álcool aos 11 anos. Aos 28, ela encontra, hoje, uma vida muito diferente daquela pela qual percorreu durante toda sua adolescência e no início da vida adulta.
Influenciada pelos amigos e pela “curtição”, J.P.P. experimentou as bebidas alcoólicas e, cerca de um ano depois, aos 12 anos, teve a primeira experiência com maconha, acompanhando um namorado usuário. Toda a família do garoto usava a droga. “Eu me sentia um ‘peixe fora d’água’. Então comecei a fumar também, para fumar igual a eles. Com 18 anos tive o primeiro contato com a cocaína e o que me levou a isso foram amigos e a curiosidade. Com 22 anos, tive meu primeiro contato com o crack, e o que me levou a isso foi a loucura do momento, a vontade de ficar mais louca do que eu já estava”, conta.
“A dependência química me levou para o ponto da escravidão. Eu usava para viver e vivia para usar. Eu só fazia coisas relacionadas ao uso e para o uso: prostituição, mentiras, manipulação e o ponto mais baixo, que foi não conseguir fazer outra coisa. Eu estava morrendo. Eu abandonei tudo o que era importante e este foi o ponto mais baixo. Eu senti necessidade de cura quando percebi que eu não tinha saída: ou eu buscava ajuda ou ia morrer”, lembra.
Nesse ponto, J. conheceu a Instituição Padre Haroldo. Lá, ela encontrou apoio e motivos para permanecer sóbria.
“Todos! Hoje eu trabalho na Instituição e tudo aqui é apoio pra que eu fique limpa! Mas quando eu não era funcionária, a Instituição sempre esteve de portas abertas para eu fazer trabalhos voluntários, participar dos grupos e isso tudo foi apoio para mim”, afirma.
“Hoje vejo um mundo que antes não via. Um mundo que é possibilitador: onde, se eu fizer a minha parte, as portas se abrem! Hoje vejo o mundo que posso viver através das minhas escolhas. Hoje não preciso e não quero culpar ninguém pelos meus fracassos. Descobri que o olhar com amor transforma e viver em sobriedade é essa transformação diária. Descobri olhar o mundo de uma forma ampla e verdadeira. Com tudo isto, eu aprendi a acreditar que o impossível só existe para quem acredita na impossibilidade e se acha limitado!”








Segunda à sexta-feira,
GOSTEI MUITO DESSAS INFORMAÇÕES POIS ISTO MUITO ME AJUDA ME DA ÁNIMO SOU VOLUNTÁRIO DESSA CAUSA. SOU UM AGENTE DA PASTORL DA SOBRIEDADE DA PAROQUIA DE SÃO SEBASTIÃO EM SUZANO
“SOBRIEDADE E PAZ”