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O fixismo é a nova lei

O fixismo é a nova lei

“O fixismo é a nova lei”

Entrevista com Evaristo Eduardo de Miranda

Por Daniel Rocha

Mestre e doutor em Ecologia pela Universidade de Montpellier, França, e pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite, onde realiza pesquisas sobre a gestão territorial do agronegócio, Evaristo Eduardo de Miranda é membro da diretoria do Instituto Ciência e Fé e agente da Pastoral das Exéquias. Foi coordenador, dentre outros, do projeto “Brasil Visto do Espaço” e autor de mais de uma centena de trabalhos técnicos e científicos.

Atualmente, tem ministrado várias palestras sobre o texto-base para a Campanha da Fraternidade 2011. Trazendo como tema “Fraternidade e a vida no planeta” e lema “A criação geme em dores de parto”, a empreitada é discutida a partir dos conceitos tradicionais católicos.

Ele trata também do chamado “catastrofismo ambiental” que há nos dias atuais e lembra que os cientistas têm discutido sobre a evolução como se ela não mais existisse. “O fixismo é a nova lei”, diz ele e, dentro deste contexto, os seres humanos, aparentemente, têm menos valor do que o restante da natureza.

Por isso mesmo, o palestrante ressalta o fato de que muitos temas no texto-base ainda precisam ser discutidos, tais como a questão do esgoto, do lixo, da qualidade do ar e outros tantos mais e levanta a discussão de como nós, cristãos, podemos ser parte da solução para estes problemas.

A Tribuna: Quais são os principais desafios a serem enfrentados, por um país emergente como o Brasil, em termos de sustentabilidade?

Evaristo: O maior desafio é conciliar o desenvolvimento e a preservação. Hoje mais de 80% dos brasileiros vivem em cidades e a tendência de urbanização continua. A Região Metropolitana de Campinas não pára de crescer. Os grandes desafios ambientais do Brasil são urbanos e não rurais: ampliar coleta e tratamento de esgoto; melhorar coleta e tratamento do lixo; garantir alimentos em qualidade e quantidade para todos brasileiros; construir moradias dignas e saudáveis; combater doenças e epidemias; melhorar a qualidade do ar; ampliar as áreas verdes e de lazer, garantir um abastecimento de água de qualidade…

A Tribuna: Os mitos e fatos sobre as emissões de gases causadores do Efeito Estufa devem ser discutidos em relação ao texto-base para a Campanha da Fraternidade 2011, uma vez que existem muitas contestações em relação ao fato de o Aquecimento Global estar realmente acontecendo?

Evaristo: Flutuações nas temperaturas médias do planeta ocorrem por razões astronômicas (ciclos de Milankovitch), por influência do sol (ciclos solares) e da atividade vulcânica. Há 8 mil anos, o clima era bastante diferente: poucas florestas na Amazônia, grandes savanas repletas de animais tanto nas Américas como no deserto do Saara, por exemplo. Entre o ano 1000 e 1200, o clima era muito mais quente. Não existiam grandes geleiras na Groenlândia, os vikings navegavam para lá sem maiores problemas e os mosteiros católicos cultivavam videiras na Inglaterra. Já por volta do ano 1700 viveu-se a chamada pequena glaciação, um período bem mais frio. Quanto às emissões de gases de efeito estufa, como o CO2, em termos absolutos, o mundo emitiu 31,5 bilhões de toneladas de CO2 de origem fóssil em 2008. A China e os Estados Unidos responderam juntos por 40% das emissões mundiais. O Brasil, com 428 milhões de toneladas anuais, ficou em 17º lugar (1,4%). Nesse assunto estamos mais para vítimas do que para réus.

A Tribuna: Muitos temas no texto-base ainda precisam ser discutidos, tais como a questão do esgoto, do lixo, da qualidade do ar e outros tantos mais. Desse modo, o que podemos fazer para melhorar a qualidade de vida em nosso planeta? E como nós, cristãos, podemos ser parte da solução para estes problemas?

Evaristo: Os países desenvolvidos gozam de qualidade de vida e ambientes sadios e equilibrados graças ao uso de tecnologias, graças à riqueza que possuem, graças à conclusão de toda a infra-estrutura de coleta e tratamento de esgoto e de tantos sistemas básicos inexistentes no Brasil. Não podemos tratar esses problemas numa linha culpabilizante, terrorista e individualista, como se dependesse apenas de cada indivíduo a solução desses desafios. Ou pior ainda, exigindo isso das crianças. Devemos agir com consciência, sendo responsáveis em nosso cotidiano, mas cobrando e exigindo soluções globais que dependem de novas políticas nacionais e internacionais.

A Tribuna: Atualmente, o que está havendo no campo da ciência é um catastrofismo ambiental ou o reflexo de significativas mudanças climáticas que efetivamente estão acontecendo?

Evaristo: Os tempos atuais têm sido de profecias cinzentas sobre as mudanças climáticas e o futuro do planeta. O catastrofismo domina. As sociedades, as nações e os indivíduos, e até as crianças, estão diante da responsabilidade urgente de “salvar o planeta”. Se isso não for feito, será o fim deste mundo: arquipélagos submersos, milhões de pessoas deslocadas em migrações catastróficas, refugiados climáticos de todas as partes, proliferação de pragas e doenças, quebra da produção agrícola, florestas transformadas em savanas e estas em desertos, cidades costeiras devoradas pelo mar e um sem fim de eventos climáticos catastróficos abatendo-se sobre os homens e a biodiversidade em todo o planeta. Talvez até já seja tarde demais e nem dê mais tempo para agir. Nos centros do poder, nos laboratórios, nas escolas, nos governos, nas organizações não governamentais e na mídia, a questão do “fim do mundo” e da sua salvação está na pauta. Para os profetas de tantas hipóteses inverificáveis, o planeta está se transformando num local ameaçador e até vingativo. Em muitos desses discursos, a natureza aparece como um sujeito dotado de consciência e arbítrio, para não dizer morada de deuses ou um deles, Gaia.

A tribuna: Qual deve ser a nossa leitura, enquanto Igreja e sociedade, dos temas propostos pela CF 2011 e como nos orientar para que eles tenham aplicação prática e positiva em nosso meio?

Evaristo: Em primeiro lugar recomendo uma leitura, a da mensagem de Sua Santidade Bento XVI para a celebração do Dia Mundial da Paz de 1 de janeiro de 2010, intitulada “Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação” e que aparentemente não consta no Texto Base da CF 2011. O essencial sobre como deve ser nosso entendimento, nosso ver, nosso julgar e nosso agir, encontram-se magistralmente claros nessa. Creio que devemos participar da CF 2011 como de uma campanha da fraternidade e não da solidariedade. A fraternidade para os cristãos se impõe como um fato biológico. Por Cristo, somos filhos de Deus e irmãos. E, por isso mesmo, co-criadores. A Campanha é um espaço para que possamos ser criadores neste mundo, participando positivamente da construção do Reino de Deus. Não se trata de incorporar culpas alheias, projetos alheios, muitos deles impostos por interesses de países ricos. Podemos partir de nosso cotidiano, de nossa casa, de nosso trabalho, de nosso bairro e comunidade. Há muito por se fazer num clima de esperança e de fé num Deus amoroso e apaixonado por suas criaturas e sua Criação.

A Tribuna: Considerando a natureza território do sagrado, ideia que evoca o respeito em relação aos preceitos ecológicos, poderemos reverter a situação da destruição de ecossistemas pelo mundo afora e preservar o nosso meio ambiente para as próximas gerações? Como?

Evaristo: O que é mais importante? Deixar um mundo melhor para nossos filhos? Ou filhos melhores para o nosso mundo? Respostas a essas indagações estão na mencionada mensagem de Bento XVI: “Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação. A busca da paz por parte de todos os homens de boa vontade será, sem dúvida alguma, facilitada pelo reconhecimento comum da relação indivisível que existe entre Deus, os seres humanos e a criação inteira. Os cristãos, iluminados pela Revelação divina e seguindo a Tradição da Igreja, prestam a sua própria contribuição. Consideram o cosmos e as suas maravilhas à luz da obra criadora do Pai e redentora de Cristo, que, pela sua morte e ressurreição, reconciliou com Deus «todas as criaturas, na terra e nos céus» (Cl 1, 20). (…). Assim, proteger o ambiente natural para construir um mundo de paz é dever de toda a pessoa. Trata-se de um desafio urgente que se há de enfrentar com renovado e concorde empenho; é uma oportunidade providencial para entregar às novas gerações a perspectiva de um futuro melhor para todos. Disto mesmo estejam cientes os responsáveis das nações e quantos, nos diversos níveis, têm a peito a sorte da humanidade: a salvaguarda da criação e a realização da paz são realidades intimamente ligadas entre si. Por isso, convido todos os crentes a elevarem a Deus, Criador onipotente e Pai misericordioso, a sua oração fervorosa, para que no coração de cada homem e de cada mulher ressoe, seja acolhido e vivido o premente apelo: Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação.

 

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