Em meio a tantas informações, na agitação do mundo, como ficam as vocações sacerdotais e religiosas e como são os jovens vocacionados de hoje? Eles tiram partido das novas tecnologias para evangelizar?
A comunicação é, hoje, um mecanismo que influencia fortemente a vida das pessoas em todas as suas dimensões. São muitos os questionamentos que se levantam em nossos tempos e em nossa realidade. O que a prática revela é que, mesmo em meio a tanto “barulho”, o chamado de Cristo se faz ouvir.
O frei capuchinho Maurício Burin Salvador, formador da Casa do Noviciado, em Nova Veneza, Sumaré, conta que existem, sim, diferenças entre as gerações que buscam a vocação sacerdotal e religiosa, cada uma tendo características próprias. Ele explica essas diferenças a partir de sua própria formação, que teve início no período pré-conciliar. “O ambiente em que a gente vivia também era um ambiente sacral, de cunho espiritual, místico, buscando-se uma identificação com determinada vocação de serviço à Igreja ”, conta. Depois do Vaticano II, de acordo com o frei, o período foi de grande conturbação social, que influenciou também a Igreja. No período pós-conciliar, a Igreja se colocou a serviço das grandes causas pelas quais as pessoas se sentiam sensibilizadas, sobretudo, a causa da justiça social: Igreja agindo no mundo, buscando transformações sociais.
“Nesse período, os jovens vocacionados eram muito marcados por certa rebeldia, reagindo às estruturas conservadoras. As propostas da Teologia da Libertação e a própria situação social e política é que motivaram muitos jovens a escolher a vocação. Os vocacionados eram pessoas que estavam descontentes com a situação social, com as injustiças e desigualdades e que queriam se valer da vocação religiosa para atuar no mundo, transformando essas realidades”, explica.
Ele observa que, a partir da década de 1990 e 2000, as motivações são diferentes. “Foram influenciados pelos movimentos novos, carismáticos, as novas fundações e congregações”, diz.
Paulinos: vocação na Comunicação Social
Em Campinas, no bairro Chácara Primavera, nove jovens seminaristas e dois padres Paulinos se dividem nas tarefas diárias. Os seminaristas ajudam na preparação da liturgia, correção de textos, contam história para as crianças, trabalham na loja da Paulus, atuam como revisores de textos, entre outras atividades.
Nascidos inicialmente para evangelizar com a imprensa, os Paulinos assumiram, gradativamente, sob a orientação do fundador, Padre Tiago Alberione, a fisionomia e orientação que apresentam hoje. A congregação está empenhada na evangelização – tendo a Bíblia como principal publicação – e na promoção humana, com os meios mais eficazes de comunicação. Sua missão não consiste somente em utilizar linguagens e tecnologias novas, mas também em ser protagonista no pensar a comunicação, contribuindo para que ela se torne sempre mais humana, à luz da boa-nova de Jesus Cristo.
Padre Luís Miguel Duarte, coordenador do seminário, comenta que os Paulinos ainda estão “engatinhando” no uso da Internet, “mas é um campo preciosíssimo, que não pode ser desperdiçado. Os novos meios são importantes para o nosso carisma. Temos que mergulhar cada vez mais nesse universo”, diz. De acordo com Padre Luís, vale ressaltar que se torna cada vez mais necessário evangelizar por esses novos meios. Contudo, ele acredita que ainda seja cedo para avaliar se o ambiente virtual é mais rico para a evangelização, pelo grande espaço que o livro possui dentro da Igreja.
O padre explica que muitos jovens procuram o carisma por seu foco em comunicação. “A comunicação fala para milhares de pessoas”, comenta.
Carmelo: vocação nasce em meio ao barulho do mundo
No Carmelo de Santa Teresinha do Menino Jesus, em Barão Geraldo, distrito de Campinas, 17 irmãs Carmelitas Descalças, entre elas três formandas e duas irmãs externas, estão a serviço de Deus e da Humanidade em rotina diária de oração e isolamento.
Madre Maria Ana de Jesus, priora do Carmelo, explica que, por ser conhecido através de santos como Santa Terezinha e São João da Cruz, grandes místicos da Igreja, o Carmelo atrai aqueles que se identificam e se espelham em seus exemplos e na vida contemplativa. De acordo com a irmã, o silêncio também chama a atenção.
“Vivemos num mundo tão barulhento que a vida de mais recolhimento e oração tem atraído muitas pessoas. Hoje, há uma busca muito grande da mística; nesse sentido, o Carmelo prima pelos grandes místicos da Igreja. Esse é um fator que chama atenção para o Carmelo, num mundo em que o valor principal é ‘aparecer’”, comenta.
Diante do consumismo dos tempos de hoje, a resistência de um carisma que prega “amar e orar” pode parecer, a princípio, uma contradição.
“A intimidade com Deus sacia o ser humano. Isso as pessoas estão descobrindo. Elas têm uma experiência com o que é mais valorizado nessa sociedade, mas isso não satisfaz. Muitas pessoas que nos procuram estavam bem de emprego, mas buscam algo maior: uma vida de simplicidade, oração, reclusão. Isso é chocante numa sociedade que é materialista, que não traz felicidade e plenitude para a vida humana”, diz a irmã.
Do claustro para o mundo
As Carmelitas Descalças destacam-se pelo recolhimento e pela oração, mas podemos dizer que estão isoladas do mundo?
“O Carmelo é para a Igreja e para o mundo. Nos sentimos perfeitamente unidas com toda a Igreja e toda a humanidade”, explica Irmã Maria Ana.
A constituição do Carmelo rege que as irmãs tenham informação sobre questões de justiça e paz. “As alegrias, tristezas e angústias, temos que apresentá-las em nossas orações. A nós, toca diretamente a questão da fome, do desemprego, os problemas do mundo, as drogas, as crianças, desastres naturais; sofremos por essas causas”, comenta. As irmãs não assistem à TV, só ouvem rádio e têm acesso a alguns jornais ligados à Igreja e ao Observatório Romano. Apenas a priora e uma irmã externa acessam a Internet e selecionam algumas poucas informações para transmitir às outras.
Neste mundo conturbado, as irmãs oferecem sua vida à vocação, como exemplo de despojamento e fidelidade, na eternidade do tempo.








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