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Teologia Moral e Pedofilia

Publicado por Redação em 04 - Mai de 2010 | Comentar
Teologia Moral e Pedofilia

Acabo de ler o texto que o papa Bento XVI escreveu aos irmãos e irmãs da Irlanda sobre Pedofilia.  O papa como pastor da Igreja Universal se diz muito preocupado com as notícias sobre o abuso de crianças e jovens vulneráveis da parte de membros da Igreja da Irlanda. Neste documento de oito páginas o papa chama os episódios envolvendo mais de 15 mil crianças e adolescentes entre os anos 30 e 90 de “atos pecaminosos e criminosos”.

Afirma o papa: “possam a nossa tristeza e lágrimas, o nosso esforço sincero por corrigir os erros do passado e o nosso firme propósito de correção dar abundantes frutos de graça para o aprofundamento da fé nas nossas famílias, paróquias, escolas e associações e para o progresso espiritual da sociedade irlandesa”.  A preocupação do papa com estes fatos foi tão grande que, em fevereiro de 2010, convocou os bispos irlandeses ao Vaticano para uma conversa muito especial.  O papa cita as “falhas graves” de alguns bispos e seus predecessores que ajudaram a ocultar os crimes. O texto do papa é contrito e objetivo.

Nele, compartilha da vergonha das vítimas e de suas famílias, diz compreender a desilusão de muitos fieis e sacerdotes e afirma ser necessária a revisão e atualização constantes das regras para o trabalho pastoral com jovens e crianças.

Afirma também o papa que a questão não se resume à Irlanda, mas a outros países de outros continentes.  Ao se dirigir a sacerdotes e religiosos afirma: “traístes a confiança que os jovens inocentes e os seus pais tinham em vós. Por isto deveis responder diante de tribunais devidamente constituídos. Perdestes a estima do povo da Irlanda e lançastes vergonha e desonra sobre vossos irmãos”.  Palavras duras que exigem correção e mudança de vida.  O teólogo moralista Antonio Moser em artigo sobre pedofilia publicado no seu livro “Teologia Moral: Questões Vitais”, Vozes, 2003, procura equacionar a questão mostrando a gravidade da situação mas, ao mesmo tempo, refletindo sobre o compromisso da sociedade com a produção social do comportamento pedófilo. Assim diz: “sem inocentar as pessoas, deveremos tentar entendê-las dentro das instituições e da sociedade nas quais viveram. A compulsão final tanto pode ser o resultado de um caminhar pregresso num beco sem saída, como o resultado das mais diversas pressões da sociedade. E aqui surge uma outra faceta da perversão que acomete os pedófilos e outros agentes de desvios e perversões sexuais: eles não existiriam se as instituições e a sociedade não os empurrassem nesta direção” (pp. 124).

Muitos teólogos moralistas da atualidade avaliam a necessidade da compreensão do ser humano enquanto ser vulnerável e frágil. Fruto do meio no qual está inserido, resultado das complexas relações sociais somos todos vítimas e cúmplices ao mesmo tempo. A chamada “moral da situação” não visa evidentemente produzir uma teoria “laxista” da sociedade muito menos legitimar “atos criminosos”, mas busca a compreensão daquele que ama, que perdoa e que pede “não peques mais”. Jesus não condenou a mulher pega em “flagrante adultério”, mas também não legitimou seus atos, pelo contrário, afirmou que não a condenaria, mas solicitou que ela não pecasse mais.

O nível do mal ultrapassa as fronteiras do pessoal enquanto ontológico, e se coloca nas raízes de uma sociedade que se comporta de modo doentio em muitas situações da vida.

É bom que se diga: a Pedofilia não está na Igreja, mas em todos os lugares, sobretudo nos lares. O abuso sexual contra crianças e adolescentes acontece todos os dias por pais e mães, padrastos e madrastas que dizem amar seus filhos e enteados.

A pedofilia não está na Irlanda, mas no Brasil também. A pedofilia não está no norte ou nordeste, mas em Campinas, bem pertinho dos nossos lares. A Igreja está fazendo a sua parte. Pode haver falhas ou omissões no texto do papa, mas considerei seu gesto bonito e altamente corajoso.

O teólogo Hans Küng em artigo no caderno Mais (Folha de São Paulo, 21/3/2010, pp.03) afirma que uma das causas estruturais da pedofilia seria a regra do celibato. Pode ser que na Irlanda, Alemanha ou mesmo no continente europeu tenha algum fundamento sua análise, entretanto, penso que nos países da América Latina as causas estruturais geradora do comportamento pedófilo são outras.

Devemos, sim, cuidar da formação dos atuais e futuros padres para que vivam sua vida afetiva de forma plena e saudável. Mas devemos, sobretudo, contribuir para transformar esta sociedade que em seu cerne está realmente cada vez mais doente.

PE. JOSÉ TRASFERETTI

DOUTOR EM TEOLOGIA E FILOSOFIA, PROFESSOR TITULAR DA PUC-CAMPINAS  E AVALIADOR/INEP-MEC

 


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