por Carolina Grohmann
Na sua 16ª edição, o Grito dos Excluídos de 2010 vem com o tema “Onde estão nossos direitos? – vamos às ruas para construir um projeto popular”.
Realizado todos os anos no dia 7 de setembro, data em que é comemorada a Independência do Brasil, o Grito tem a missão de conscientizar a população de que muita coisa deve ser feita para que o país atinja, de fato, sua independência.
Além de desemprego, fome e doenças, o Brasil enfrenta um problema iniciado nas Capitanias Hereditárias, em que donatários recebiam grandes terras para explorar, o que resultou numa injusta distribuição de terras.
É por isso que o Plebiscito Popular “Pelo Limite da Propriedade de Terra” acontecerá junto com o Grito. Ter um pedaço de terra para morar e produzir alimentos é um direito de todos e a luta por isso é antiga e marcada por conflitos.
Confira a entrevista com Cícero Palmeira da Silva, coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de Campinas, que explica qual a missão do Grito e do Plebiscito Popular.
A Tribuna: Como surgiu a idéia do grito?
Cícero: A partir da Pastoral Social Brasileira e da Campanha da Fraternidade nasce a proposta do Grito, em 1994. Em 1995, a gente realiza o primeiro, com a maior concentração em Aparecida, que se dava junto com a Romaria dos Trabalhadores e a partir daí a gente começou a disseminar a idéia nos Estados e nas cidades. Hoje, o Grito tomou uma proporção nacional, em mais de 350 cidades.
A Tribuna: O que o Grito trouxe para a sociedade?
Cícero: Trouxe o despertar da consciência dos participantes. Não é um ato só da Igreja, ele nasce no seio dela, mas se tornou uma ação dos movimentos e das entidades e trouxe o crescimento da conscientização dos trabalhadores, os que são excluídos do trabalho, da educação, da saúde, moradia e dos sem terra, que sempre estiveram conosco, tanto na construção do Grito como na participação.
A Tribuna: Como é feita a preparação?
Cícero: Um Grito começa quando termina o anterior. Quando terminou o primeiro, de 1995, já começou a articulação do de 1996 e assim sucessivamente. Em abril, a gente costuma fazer o encontro dos articuladores, um encontro nacional dos articuladores do grito, que acontece em São Paulo. Daí começa a preparação e produção, o tablóide, o cartaz e a proposta de símbolo.
A Tribuna: Vocês têm alguma parceria?
Cícero: Nossos parceiros são a Igreja, entidades, os sindicatos centrais, a associação de moradores, de escolas e a CNBB.
A Tribuna: Como é feita a divulgação?
Cícero: É feita através do tablóide, do cartaz e dos programas de rádio que a gente faz.
A Tribuna: Por que é feito no dia 7 de setembro?
Cícero: Dia 7 é o dia em que a gente comemora a independência da pátria, mas a gente percebe que nós não estamos independentes. Já fomos muito mais dependentes, muita coisa já melhorou através da conscientização, mas o Brasil ainda não é um país independente. O país pode até ser, mas a população depende de muita coisa ainda: de saúde, de moradia, de terra, de emprego, principalmente.
A gente está acostumado a ir para as ruas para ver o desfile de cavalos, carros, polícia; nós não temos nada contra as Forças Armadas, nada contra o policiamento, pois faz parte da nossa vida, mas a gente vê apenas isso. A escola não ensina o que, na verdade, foi o descobrimento, a independência do Brasil. A gente quis, com o Grito, mostrar o outro lado da moeda.
A Tribuna: Você acha que o Grito desse ano vai ter maior importância por estarmos num ano de eleição?
Cícero: Todo ano de eleição a importância do Grito foi a mesma. Tendo eleição ou não, o Grito foi feito para despertar a consciência, para ajudar a pessoa a escolher bem seu candidato. Independentemente de posição ideológica ou partidária, o importante é escolher aquele que vai nos representar. Essa é a função e missão do Grito: despertar a consciência.
A Tribuna: Em que consiste esse projeto popular: “Onde estão nossos direitos? Vamos as ruas construir um projeto popular”.
Cícero: Popular é aquilo a que todo mundo pode ter acesso. Que a produção brasileira esteja ao alcance de todo mundo. Que todos tenham igualdade. A gente quer que, além de suas necessidades, todos tenham educação, lazer, moradia.
A Tribuna: Qual é a força de o Grito e o plebiscito acontecerem juntos?
Cícero: Não é justo que, enquanto só um tenha terras equivalentes ao país da Holanda, outro não tenha um pedaço de terra para morar e para tirar dela o seu sustento. E o Grito vai reforçar essa idéia, vai mostrar para as pessoas que algo precisa ser feito.
A Tribuna: Como vai acontecer o plebiscito em Campinas?
Cícero: A nossa proposta é de pedir que as paróquias falem para o povo votar, colham assinaturas. Nós vamos montar banca na praça, pedindo para a população que assine e que vote. A coordenação nacional está formalizando as perguntas, que não podem ser complicadas, com o intuito de atingir o nosso propósito, que é desencadear, com o plebiscito, leis que demarquem o território.
A Tribuna: Como a Igreja vai ajudar nesse plebiscito?
Cícero: A comissão da CNBB, Justiça, Caridade e Paz, mandou uma carta de apoio para todas as paróquias e quem tiver interesse é só entrar no site da CNBB que está lá, pedindo que a paróquia assuma a realização do plebiscito. A terra é questão de vida, de sobrevivência e eu tenho certeza que o povo de boa vontade da nossa Igreja está disposto a nos ajudar nessa caminhada.
CARTA DE APOIO AO PLEBISCITO POPULAR PELO LIMITE DA PROPRIEDADE DA TERRA E AO 16º GRITO DOS EXCLUIDOS
Reunidas em Brasília, nos dias 14, 15 e 16 de Junho, as coordenações regionais e nacionais das Pastorais Sociais e Organismos da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da CNBB, assumem o compromisso de participar do 16⁰ Grito dos Excluídos e da organização do Plebiscito Popular por um Limite da Propriedade da Terra no Brasil.
Esta decisão tem como base a consciência de que a democratização da terra através da reforma agrária é uma luta histórica do povo e uma exigência ética afirmada pela CNBB há décadas. É também a realização de um gesto concreto proposto pela Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010, promovida pelas Igrejas membros do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), como consta no Texto Base, n. 120: “Mobilização de apoio ao Plebiscito de iniciativa popular pelo Limite da Propriedade da Terra, em defesa da Reforma Agrária, da Soberania Territorial e Alimentar, promovido pelo Fórum Nacional de Reforma Agrária e Justiça no campo”.
Para isso, convidamos os cristãos e cristãs das dioceses, paróquias, comunidades, movimentos a engajarem-se neste exercício de cidadania que será realizado na Semana da Pátria e especialmente no dia 7 de setembro, junto com o 16⁰ Grito dos Excluídos/as, abrindo espaços, formando comitês, colaborando com os comitês estaduais no processo de informação, formação e coleta dos votos.
O engajamento nesta prática cidadã de democracia direta é uma forma de realizar nossa missão evangélica em favor e junto com os excluídos e excluídas, construindo uma sociedade justa e solidária que garanta vida digna para todos os brasileiros e brasileiras.
Brasília, 16 de Junho de 2010.
Dom Pedro Luiz Stringhini
Presidente da Comissão








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