No Brasil, são aproximadamente 60 mil as pessoas que aguardam por um órgão, na lista de espera do Sistema Nacional de Transplantes (SNT). Entre os fatores que limitam o número das cirurgias, estão a falta de notificações sobre pacientes com morte encefálica, o desconhecimento técnico para esse diagnóstico e as dificuldades no transporte dos órgãos. Falta, ainda, maior sensibilização da sociedade para o tema. Um único doador, após a morte, pode salvar ou melhorar a qualidade de vida de 25 pessoas, exemplo de como a doação de órgãos pode multiplicar vidas.
Mas diante da fé cristã na ressurreição final, como a Igreja se coloca diante do tema?
“A Igreja se posiciona favoravelmente à doação de órgãos, obviamente, desde que respeitados alguns critérios, como a não utilização dos órgãos para interesses escusos”, explica o pároco da São Benedito, Vila Costa e Silva, e assessor da Pastoral da Saúde, padre Norberto Tortorelo Bonfim.
“A Igreja entende que é um gesto nobre, em favor da dignidade da vida. É doar a modo de Jesus”, adiciona.
Ele enfatiza, a partir de sua experiência como capelão do Hospital das Clínicas da Unicamp e no exercício do sacerdócio, a importância desse gesto para as pessoas transplantadas.
“Lamentamos a morte, mas a morte gera vida. Essas pessoas recuperaram a alegria de viver”, comenta o padre.
Mitos e desinformação
Para padre Norberto, a polêmica que persiste em relação ao tema deve-se, em muito, à sua má-compreensão. Embora a Igreja trabalhe a concepção de corpo dentro da perspectiva da ressurreição, no imaginário popular é preciso “entrar na eternidade com o corpo inteiro”. Daí vem parte da resistência em doar um ou mais órgãos após o falecimento. Mas “Deus dá vida aos mortos e chama à existência o que antes não existia” (Rm 4,17), e, por isso, padre Norberto explica que a doação de órgãos não interfere na imortalidade.
A desinformação também integra o universo de receios que habitam o imaginário popular: desvio, tráfico e assassinatos com o objetivo de roubo de órgãos; receptores que, com mais poder financeiro e político, possam burlar a fila de espera; diagnóstico de morte encefálica, também chamada de morte cerebral, incorreto; entre outros temores.
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