Close

Not a member yet? Register now and get started.

lock and key

Sign in to your account.

Account Login

Forgot your password?

Destaque: Violência contra o Idoso

Destaque: Violência contra o Idoso

por Bárbara Beraquet

“Com o idoso, a gente aprende a ouvir”. É assim que Neide Pereira, que há mais de um ano integra, como cuidadora, o programa de atendimento domiciliar a idosos da AFASCOM (Associação Franciscana de Assistência Social Coração de Maria), resume o aprendizado colhido, dia a dia, no trabalho com os idosos. O programa tem como foco atender e acompanhar as necessidades de idosos vítimas de violência doméstica, em suas próprias casas.

“Depois de muito tempo trabalhando em um shopping center, prometi a mim mesma que trabalharia com algo que fosse gratificante para mim”, diz Neide. Ela conta que, no início, ficou abalada. “Sabia que existiam idosos que passavam por dificuldades, mas não sabia que existiam idosos abandonados”. Ela percebeu que o abandono não era apenas algo que ela via na TV. “É realidade”, enfatiza.

Na rotina de uma cuidadora, está o acompanhamento muito próximo da rotina do idoso. De acordo com o grau de dependência, os afazeres mudam. “Cada dia é diferente”, comenta, “mas é preciso estar sempre tranquila para enfrentar cada situação”. Além disso, leva um tempo para que o idoso acompanhado aceite a presença do cuidador.

Tristeza, solidão, amargura; às vezes, revolta: são esses, em muitos casos, os sentimentos que Neide encontra nos idosos de que cuida. Falam do passado, reclamam da ausência dos filhos e netos. A cuidadora acredita ter ficado mais compreensiva e leva para sua casa o que aprende no trabalho. Com as duas filhas, procura conversar mais e ser mais paciente.

Semanalmente, as 10 cuidadoras da AFASCOM se reúnem.  Não apenas para o acompanhamento de cada caso, a reunião é palco de uma troca de experiências.

Envelhecimento: uma das muitas fases da vida

“Vivemos em uma cultura da juventude”, aponta a assistente social Mônica Secco, vice-presidente do Conselho Municipal do Idoso (CMI) de Campinas. “Socialmente, não aprendemos a envelhecer. Apesar do envelhecimento ser um processo natural, nossa cultura, especificamente, o vê como processo de morte”, comenta. Assim, quem atinge e ultrapassa a marca dos 60 anos, idade considerada pelo Estatuto do Idoso, é visto como um “peso”, como alguém que não “produz” mais e que, portanto, não tem nada a oferecer. A violência contra o idoso é também reflexo desse raciocínio, que tem se perpetrado em nossa cultura; uma cultura que valoriza o jovem economicamente ativo e para a qual envelhecimento significa adoecimento.

Mas envelhecer não precisa ser sinônimo de adoecer: é preciso estimular trabalhos de educação e prevenção que evitem um envelhecimento marcado por doenças. “Devemos ter o mesmo olhar, prezando a qualidade de vida, para todas as fases da vida, e pensar, sempre, no ser humano de forma integral”, diz.

Violência não é só agressão física

A violência mais relatada é a negligência, em que as necessidades do idoso não são atendidas, seguida pelo abandono, especialmente o psicológico; em seguida, o abuso financeiro, a violência física e, mais raramente, a violência fatal. Muitas vezes, as violências estão ligadas.

Valéria Barbosa, assistente social, presidente do CMI e assessora da AFASCOM, conta que o abuso financeiro tem crescido, já que muitas famílias se mantém do rendimento do idoso. Mas nem sempre o idoso entende isso como um abuso. “O próprio idoso, muitas vezes, não se enxerga como ser de direitos”, explica Valéria. Ela comenta que o idoso deve ser visto tal como é: um membro da família, que pode ajudar financeiramente, mas que, sob nenhuma hipótese, deve ser explorado.

“É importante que o idoso possa ser respeitado, independentemente da vida que escolher. Que o idoso tenha em mente que o direito de viver com dignidade é dele, em qualquer fase da vida”, ensina Valéria.

Em Campinas, o CMI faz a ponte entre poder público e sociedade civil, ao fomentar as discussões sobre o tema na comunidade, facilitar o diálogo entre os diversos atores, estimular a participação dos idosos nesse processo, lutar pela garantia dos direitos dos idosos e fiscalizar instituições e poder público.

Números da violência

97.679: esse é o número de idosos em Campinas, que corresponde a 7% da população da cidade, de acordo com dados da Secretaria da Saúde de 2009.

DE 30 A 40: esse é o número médio de denúncias que o CIAPVI (Centro Integrado de Atenção e Prevenção à Violência contra a Pessoa Idosa) recebe mensalmente

(19) 3236-3040: esse é o número de telefone do Disque-Denúncia

37,5%: esse é o número do aumento de denúncias de violência contra idosos em Campinas entre 2008 e 2009, segundo dados do Centro Integrado de Atenção e Prevenção à Violência contra a Pessoa Idosa (CIAPVI). Os registros saltaram de 288 em 2008 para 396 no ano passado. Abuso psicológico, negligência, abandono e agressão física são os principais registros de maus-tratos contra a população acima de 60 anos na cidade. Filhos e familiares são os principais agressores. Dados do Sistema de Notificação de Violência de Campinas (SISNOV), referentes ao ano de 2009, mostram que número de notificações envolvendo idosos é o maior de todas as faixas: 1,8 por grupo de mil habitantes do município de Campinas.

Sinais de alerta

A violência contra o idoso é um fenômeno observado recentemente, agravado pela falta de redes sociais, pelo isolamento das famílias e pela ausência de apoio da comunidade e de vínculos comunitários. Como Valéria e Mônica comentam, também se perdeu a noção de família. Os principais agressores são os filhos e, entre as causas, estão estresse, dependência química ou problema de saúde mental, interesses financeiros ou patrimoniais.

Mas como saber se um idoso é vítima de violência? A equipe do CMI aponta alguns sinais:

1 – Estado geral e físico do idoso: o idoso está constantemente machucado, apresentando lesões e ferimentos; ou está sempre coberto, vestindo roupas  compridas mesmo quando está calor; ou nota-se emagrecimento excessivo.

2 – Desaparecimento do idoso ou mudança de rotina: ninguém vê ou sabe do paradeiro do idoso; o idoso não freqüenta locais que freqüentava regularmente, por exemplo, feira-livre e mercado; ou deixa de atender a atividades antes habituais.

3 – Família que evita ou proíbe que se visite o idoso: também há casos de cárcere privado na lista de violências cometidas contra o idoso. Familiares ou responsáveis evitam que o idoso receba visitas, sob uma série de pretextos, ou mesmo a proíbem; ou proíbem que o idoso saia de casa.

4 – Idoso que não fala: é sempre o filho ou responsável que responde ou que trata dos assuntos de interesse do idoso; o idoso não se expressa ou não se manifesta.

5 – Ausência de adesão a tratamento médico necessário ou adesão insuficiente: idoso que, doente ou na tentativa de evitar o adoecimento, não recebe os medicamentos ou tratamentos prescritos; idoso abatido, sem cuidados; depressão; agravamento acentuado de demência.

6 – Condições de higiene precárias: idoso que visivelmente não toma banho há dias; higiene oral precária.

7 – Depreciação do idoso: familiares ou responsáveis depreciam o idoso; desrespeito; familiares que tratam o idoso como incapaz de tomar decisões ou que o desconsideram.

Vale lembrar: a ausência de sinais e sintomas não assegura a inexistência de violência. A psicóloga Raquel Ribeiro, primeira secretária do CMI, explica que é possível notar sinais de violência mesmo nos casos em que o idoso vive só. Nesses casos, são comuns o abandono e a negligência.

Como agir?

Em caso de suspeita, é possível entrar em contato com o CIAPVI através do Disque-Denúncia. As profissionais do CMI lembram que também é importante informar, através desse telefone, quando uma “casa de repouso” ou um “asilo”, chamados de ILPIs (Instituições de Longa Permanência dos Idosos), é aberto. Isso porque,  muitas vezes, uma instituição é fechada por falta de estrutura mínima, condições de higiene ou negligência, mas reabre em outro bairro. Assim, com a ajuda da população, é possível monitorar esses estabelecimentos e evitar a clandestinidade.

Muito se tem discutido sobre as ILPIs; é crucial, para que os direitos do idoso sejam respeitados, que elas cultivem a socialização, tenham as portas abertas,  estimulem os vínculos familiares e promovam o contato e a integração com a comunidade. E, embora a família sempre seja o melhor espaço para o idoso, é importante que cada caso seja avaliado individualmente, para que institucionalização possa ser encarada sem o estigma do abandono.

Griots

A Associação Griots, completou, em junho de 2010, sete anos com muitas razões para comemorar. Uma delas é que a organização não-governamental passou a atuar em mais uma instituição que atende idosos: o Asilo São Vicente de Paulo, de Itatiba.

A ONG já atuava no Lar dos Velhinhos de Campinas. Lá a equipe de contadores de histórias foi reforçada e passa a contar com homens. “É muito gratificante saber que o trabalho que desenvolvemos cresceu e agora pode ser levado também às pessoas da terceira idade em vários locais”, comenta a diretora da associação, Cleonice Camarero Nadalin.

Atualmente, a organização conta com 150 voluntários e atende 15 instituições, localizadas em Campinas, Hortolândia, Indaiatuba, Itatiba, Itapira, Mogi Guaçu, Sumaré, Valinhos e Vinhedo.

De posse de livros, bonecos, fantoches, brinquedos, papel e lápis de cor, os Griots visitam os leitos dos hospitais e contabilizam cerca de 1200 atendimentos mensais. As atividades de caráter social e humanitário auxiliam no tratamento das doenças.

Cada membro da associação dedica pelo menos uma hora por semana à atividade voluntária. Eles têm que passar por um processo que inclui palestras e estágio em hospitais. O treinamento é essencial para que o novo voluntário conheça o universo dos Griots e a realidade dos contadores de histórias. Por quatro semanas o candidato é acompanhado por um voluntário mais experiente, e isso faz com que ele conquiste maior confiança no desenvolvimento das atividades.

Vida melhor

Na casa simples, de apenas alguns cômodos, no Jardim São Fernando, em Campinas, vive Romão Miravetti. Com baixa visão, seu Romão recebe, em casa, o auxílio de uma cuidadora da AFASCOM.

Enquanto conversamos, Neusa Cristina Santos prepara o almoço para o senhor de cabelos ralos e expressão bondosa. São 76 anos de vida e de muita história deste homem que, formado técnico em eletrônica, trabalhou como comissário de menores e viajou, por vias férreas e rodovias, para entregar menores a seus destinos: pais, familiares ou membros da justiça.

Grande parte da vida, que começou na cidade de Jaú, seu Romão passou cuidando do pai e mãe adoentados, e do irmão, diagnosticado com esquizofrenia. Quando todos faleceram, ele ficou só, na casa em que vivia com a família. Ele lembra que algumas primas faleceram solteiras e encontra em seu registro genealógico, por assim dizer, uma certa “solteirice” de família. Os poucos parentes distantes que restaram, visitam-no raramente. “Eu, não. Com minha mãe, até o último dia, eu ia ao hospital, pousava numa cama ao lado dela”, conta.

Enquanto seu Romão enxergava, conseguia dar conta das atividades cotidianas, como preparar suas refeições e circular fora de casa. Mas, com o agravamento do problema genético que reduziu drasticamente sua visão, isso ficou difícil.

“Quando as técnicas da AFASCOM vieram aqui e começaram a prosear no portão, gostei do papo delas. Elas sentaram aí, onde você está sentada, e falaram o que era o programa”, conta.

Há mais de um ano, Neusa visita e cuida de seu Romão, em sua casa.

“Estou muito contente. Se não fosse o programa, como eu faria? Por que não é um asilo, é mais livre”, explica o idoso.

Seu Romão lembra nomes e sobrenomes, endereços, personagens, fatos e datas que marcaram sua vida. Perguntado sobre o mundo de hoje, é direto: “pelo que tenho ouvido no rádio, não sei onde vamos parar”, diz. “Tenho dó da juventude de hoje, que mata pai, mãe, avós para comprar drogas”, completa.

Em 26 de outubro passado, Romão comemorou mais um aniversário e recebeu, em casa, para celebrar, a visita da equipe da AFASCOM e das irmãs do Colégio Ave Maria, que sedia a Associação.

“Não me sinto sozinho, me sinto com Deus”, diz seu Romão, mas fato é que a interferência da AFASCOM faz toda a diferença em sua vida. “Melhor, impossível… É bom que não feche; se fechar, danou tudo”, arremata.

Todos os casos chegam através de denúncia. Denunciar nada mais é do que informar as autoridades que um idoso possa estar sendo negligenciado, abandonado ou agredido. Não é preciso ter medo de ligar. Essa informação tem valor e é através dela que se garante o respeito à vida e à dignidade de muitos idosos.

Idosos têm estatuto próprio desde 2003

Destinado a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos, foi sancionado, em 01 de outubro de 2003, pelo presidente Lula, o Estatuto do Idoso. Mais abrangente do que a Política Nacional do Idoso, de 1994, que dava garantias à terceira idade, o Estatuto institui penas severas para quem desrespeitar ou abandonar cidadãos da terceira idade.

Serviço:

CMI: (19) 3254-9263 ramal 3

AFASCOM: (19) 2129-9922

Griots: (19) 3232-5018 / www.griots.org.br

Disque-Denúncia (CIAPVI, que encaminha as denúncias às autoridades competentes): (19) 3236-3040

 

7 comentários

  • miriam disse:

    Gostaria de saber se eu podia fazer uma visita para estes idosos para conversar !
    tenho curiosidade de conhecer e ouvir alguém que precisa de desabafo
    Se puder, tem agendar horário e dia ?
    obrigada

    • Barbara disse:

      Miriam, você deve entrar em contato com as entidades citadas, pelos telefones que estão na matéria, para que possam lhe passar as orientações.
      att.,
      Equipe A Tribuna

  • Valdir Saguas disse:

    Prezados senhores
    Tenho uma tia de 92 anos, doente e impossibilitada de se locomover, que esta sendo maltratada e explorada financeiramente por um sobrinho. Como ela reside em São Paulo- Capital, a quem devo recorrer para oferecer denuncia ? ? ?
    Antecipadamente agradeço
    Valdir Saguas
    RG 1.306.856
    Rua Pascal, 87 apt. 1
    04616-000 S.Paulo SP
    11-50936059

    • Barbara disse:

      Em sua região, recomendamos procurar a polícia para informar-se sobre canais ou contatos específicos para a denúncia. Eles saberão orientá-la. att
      Redação

  • Zelia Maria Q. Negrao disse:

    O idoso traz em si a beleza de todas as idades. Merece ser respeitado, amado e considerado. E, sobretudo, merece ser ouvido, pois tem sabedoria de vida.
    Zélia Maria,ops
    Toda de Cristo
    Cps, 24/set/2011

  • Lucia disse:

    Por gentileza estou procurando desesperadamente meu tio, seu nome Benedito Jorge ele tem 65 anos e é portador de deficiencia auditiva está desaparecido a dois dias.
    Aguardo alguma notícia.
    telefone contato (019)3859-2539
    Atenciosamente


Deixe um comentário